3/10/2018

Professora da USP explica como utiliza modelos de pele reconstruída para testar em laboratório novos medicamentos contra o melanoma

De todos os tipos de câncer, o mais comum é o de pele: atinge pessoas de todas as idades, em todas as partes do mundo. Por outro lado, graças aos avanços recentes da ciência, os tipos mais comuns da doença são tratáveis e de fácil diagnóstico. Porém, um tipo específico ainda traz desafios para a comunidade científica e médica. O melanoma, que representa apenas 4% dos casos de câncer de pele, mas 80% das mortes, é difícil de tratar, pois apresenta grande resistência aos medicamentos quimioterápicos. Encontrar um tratamento realmente eficaz contra o problema é o objetivo da bióloga Silvya Stuchi Maria Engler, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Na última quinta-feira (20/9), ela esteve no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, no Rio de Janeiro, para falar sobre seu trabalho.

O melanoma, como o nome sugere, é um tipo de câncer que tem origem nos melanócitos, as células produtoras de melanina – pigmento que dá cor à pele. “Existe uma relação íntima entre a pigmentação da pele e o desenvolvimento do melanoma”, explicou a pesquisadora. De uma forma geral, quanto mais pigmentada uma pele é, mais protegida está de desenvolver esse tipo de câncer de pele. Mas, embora a maioria das pessoas associe a doença à excessiva exposição ao sol, vale notar que o melanoma também pode aparecer em regiões do corpo que não ficam expostas, como as mucosas.

No início dos anos 2000, quando cientistas ingleses anunciaram a identificação dos marcadores genéticos do melanoma, houve grande mobilização da indústria farmacêutica, com criação de medicamentos específicos para a doença. Em consequência, observou-se um aumento significativo da sobrevida de pacientes. Por outro lado, trata-se de medicamentos caros e nem sempre eficazes. Pesquisadores logo identificaram, também, que cresceu o número de casos de tumores resistentes aos quimioterápicos disponíveis.

“Foi por isso que o nosso laboratório começou a trabalhar com células tumorais resistentes”, contou Engler. “Nossa metodologia é coletar células de melanoma metastático e, no laboratório, tratá-las com quimioterápicos para induzir a resistência. Depois, usamos as células resistentes para testar novos medicamentos ou novas combinações de medicamentos”.

Para os testes in vitro, as células tumorais são colocadas junto a um modelo de pele humana reconstruída em laboratório. A ideia é mimetizar o ambiente em que o tumor se desenvolve no corpo humano.

O trabalho foi realizado em parceria com o Centro de Câncer Moffitt, nos Estados Unidos, que forneceu as células provenientes de pacientes. E, enquanto os pacientes eram tratados no hospital, a equipe da USP submetia as células tumorais a tratamento semelhante na bancada do laboratório. “Observamos que nosso modelo in vitrorespondia de forma muito semelhante aos pacientes no hospital”, explicou Engler. Depois de uma primeira rodada de quimioterapia que aparentemente resolvia o problema, o melanoma voltava a crescer e, desta vez, já não reagia mais ao mesmo tratamento – em outras palavras, tornava-se difícil induzir as células tumorais à apoptose ou morte celular.

Em busca de características que explicassem por que os tumores adquiriam resistência ao tratamento quimioterápico, o grupo de cientistas, com a colaboração do Hospital do Câncer de Barretos, identificou dois genes, GLI1 e GLI2, que estão relacionados à resistência aos quimioterápicos. “Inibir GLI1 e GLI2 torna as células mais suscetíveis à apoptose”, revelou a pesquisadora. “Por isso, esses genes são um alvo potencial para combater a resistência aos quimioterápicos”.

Para avançar na busca de um novo medicamento contra o melanoma, a equipe ainda precisa vencer alguns desafios da modelagem da doença em laboratório. O principal deles é que o melanoma tem muitas mutações e é muito heterogêneo entre os pacientes – essa é uma questão crucial do processo de resistência e uma característica extremamente difícil de reproduzir in vitro. “Seguimos buscando novos modelos de câncer in vitropara superar as limitações metodológicas e possibilitar a aproximação dos achados do laboratório do que se vê nos pacientes”, conclui Engler.

*Texto publicado originalmente em: http://revistaonco.com.br/pele-melanoma/