5/06/2018

Organoides com características iguais ao câncer de cada paciente servem de modelo para testar drogas

 

O teste de medicamentos contra o câncer pode ganhar um novo método mais eficaz. Cientistas apostam agora em réplicas de tumores em escala reduzida, espécies de mini tumores criados em laboratório, para estudar novas estratégias de combate a doença. A técnica pode melhorar a seleção de drogas de modo mais específico para cada paciente quando os testes genéticos não são um opção e facilitar ensaios clínicos.

Uma pesquisa publicada na Science dessa semana relata os resultados do novo método. A partir de biópsias de tumores dos pacientes, os cientistas criaram os “mini tumores”, ou organoides, que refletem as características próprias do câncer de cada indivíduo. Com esse “clone” do tumor, foi possível testar a resposta da doença a diferentes tratamentos. A ideia é usar os mini tumores para testar o tratamento de cada paciente antes de expô-lo, tornando o cuidado mais personalizado.

Os pesquisadores usaram biópsias de 71 pacientes com câncer avançado e metastático de intestino, esôfago e duto biliar. As amostras foram colocadas em gel, onde puderam crescer de modo tridimensional, como um tumor real. Foram testadas 55 drogas já estabelecidas, de quimioterapia e terapia-alvo, e os resultados comparados com a resposta clínica dos pacientes aos mesmo tratamentos.

O mini tumores previram as drogas que não funcionaram em 100% dos casos e identificaram drogas capazes de reduzir o câncer em 88% das vezes. A técnica se mostrou mais eficaz que os exames de DNA em alguns casos, quando segundo análise genética o paciente responderia a uma determinada droga, mas os mini tumores mostraram-no contrário.

“Os organoides se mostraram uma estratégia rápida e custo-efetiva para modelar a resposta apo tratamento em tempo real e prover uma previsão acurada da reposta do paciente”, afirmou à Revista Onco& um dos líderes do estudo George Vlachogiannis, do Institute of Cancer Research (ICR), Londres (Reino Unido).

 

Cópia fiel

 

Análises genéticas e patológicas dos mini tumores revelaram que eles apresentam a mesma constituição do tumor original do paciente, com a mesma combinação específica de células de mutações. Segundo o estudo, 95% dos organoides produzidos eram geneticamente idênticos às amostra da biópsia.

“Conseguimos olhar em incrível detalhe como os tumores reagem às drogas, incluindo os padrões de atividade e mutações e como câncer evolui”, disse Vlachogiannis. “Estudos anteriores já haviam demonstrado que esses organoides podem ser usados como plataformas de testes de drogas, mas nosso estudo é o primeiro a mostrar que os mini tumores refletem as mesmas repostas observadas na clínica, o que tem grande impacto na medicina personalizada.”

O modelo dos mini tumores em gel a princípio só não poderia se usado para testar drogas que atuam no microambiente ao entorno do tumor, como por exemplo medicamento que restringem o suprimento de sangue ao câncer.

Mas os pesquisadores também testaram o comportamento dos mini tumores em um ambiente mais próximo ao corpo humano, transplantando-os em camundongos e observaram que eles se comportaram de maneira semelhante a esperada em humanos.

Vlachogiannis contou ainda que já está planejada uma nova fase do estudo para tentar recriar in vitro o microambiente entorno do tumor. “Os organoides que descrevemos são simplesmente células de câncer, mas no organismo do paciente as células de câncer recebem o impacto de várias outras células, como fibroblastos e células do sistema imune, que criam o microambiente que afeta o comportamento do tumor a sua resposta ao tratamento”, comenta o pesquisador.

O patologista Fernando Soares, do Grupo Oncologia D’Or, acredita que os mini tumores irão ser incorporados não só aos teste clínicos, mas à prática clínica. “Os organoides e os xenotransplantes poderão, em um tempo relativamente curto, fazer parte do arsenal que o oncologista terá para selecionar a melhor terapia para o paciente correto”, disse.

 

Texto originalmente publicado na Revista Onco&:  http://revistaonco.com.br/mini-tumores-criados-em-laboratorio-podem-personalizar-o-tratamento-do-cancer/