5/06/2018

Dispositivo pode ser comprado por qualquer pessoa e testa 3 mutações. O acesso a esse tipo de informação sem aconselhamento médico preocupa especialistas

 

A agência equivalente à Anvisa dos EUA, o FDA, aprovou a comercialização direta aos consumidores de um dispositivo que testa em amostras de saliva três mutações genéticas associadas ao câncer de mama e ovário. Por um lado, a ferramenta democratiza o acesso aos testes genéticos de risco de câncer à população em geral, mas por outro, preocupa especialistas pelo modo como as pessoas podem lidar com esse tipo de informação sem o aconselhamento médico.

O teste, vendido pela empresa 23andMe, detecta três das mais de mil mutações conhecidas nos genes BRCA 1 e 2. Essas alterações em especial aumentam o risco de câncer de mama entre 45 e 80% e são mais comuns entre as populações de mulheres com ancestralidade judia Ashkenazi, do leste europeu. Mas mesmo entre esse grupo, as mutações são encontradas em apenas 2% das mulheres.

O oncologista Gilberto Amorim, do Grupo Oncologia D’Or, chama atenção para a especificidade do teste e para o modo como as mulheres em geral vão enxergar a novidade. “Para a maioria das mulheres, que não tem a ancestralidade judia, este teste tem pouquíssima utilidade, uma vez que estas mutações só existem em 0,1% da população geral”, ou seja, 1 teste positivo em 1000”, pontua. “Além disso, há outras centenas de mutações que não são detectadas pelo dispositivo.”

Aconselhamento médico

O próprio FDA alerta que o teste não deve ser usado para tomar decisões sobre tratamentos, por deixar de fora muitas mutações importantes e pelo fato de que a maioria dos cânceres de mama não são hereditários e não estão ligados a mutações como dos genes BRCA1 e 2.

Amorim ressalta a importância de uma aconselhamento genético completo e da consulta com um oncologista. “O aconselhamento médico é fundamental e deve ser feito por médico geneticista ou mesmo por oncologistas e mastologistas, na ausência do especialista em genética”, diz. “Fazer um teste destes por ‘cancerofobia’ é um desperdício de dinheiro e pode criar uma falsa sensação de segurança.”

O teste será vendido nos EUA por cerca de 200 dólares, o equivalente a cerca de 680 reais. Além desse teste, a empresa 23andMe tem permissão para comercializar testes genéticos de Parkinson e Alzheimer diretamente para consumidores.

“Ser a primeira empresa a receber a permissão para oferecer testes genéticos para risco de câncer diretamente para os consumidores é um grande passo para nós e para a população”, disse a CEO da 23andMe Anne Wojcicki, em comunicado oficial. “Acreditamos na importância dos consumidores terem acesso direto e viável a informações que podem potencialmente salvar suas vidas.”

Em 2013, o FDA havia proibido a 23andMe de vender qualquer dado de saúde diretamente a consumidores por receio de que isso pudesse gerar falsas esperanças e erros de interpretação por parte da população. À época, a empresa havia lançado seu teste genômico. Mas a decisão foi revertida em 2015 e hoje a empresas oferece diversas opções de testes para fazer em casa.

Tendência sem volta

Esse tipo de produto é uma tendência atual. Outras empresas como Ancestry, HomeDNA e Natinal Geographic têm investido na venda de testes genéticos direto aos consumidores, por correio, para detecção de riscos de doenças e ancestralidade.

“Vejo com muitas ressalvas, mas entendo que é um caminho sem volta, pois de um lado existem interesses comerciais poderosos em jogo, e de outro temos um avanço inequívoco da genética laboratorial com cada vez mais testes com mais e mais mutações que estarão no futuro ao alcance das mãos na gôndola da farmácia”, comenta Amorim. “Me preocupa principalmente o que as pacientes farão com a informação do teste, seja positivo ou negativo.”