5/06/2018

Especialistas reforçam que a medicina integrativa (terapias como acupuntura e ioga) deve ser  aplicada em conjunto com a medicina tradicional

 

A medicina tradicional oferece uma série de medicamentos para curar ou controlar a dor decorrente do câncer ou do próprio tratamento. Ainda de forma tímida, está surgindo a chamada medicina integrativa, que deve ser oferecida em complemento à medicina tradicional promete mais bem-estar e qualidade de vida ao paciente oncológico. Trata-se de  terapias como acupuntura, exercícios, ioga, estimulação nervosa elétrica transcutânea, aplicações de calor ou frio, entre outras, algumas delas com comprovações científicas.

Lisiana Wachholz Szeneszi, especialista em cuidados paliativos e psico-oncologia, explica que existe um arsenal medicamentoso para tratar a dor oncológica. No entanto, o uso adequado de cada remédio depende de análise minuciosa do tipo de dor e sua intensidade para avaliar benefícios, efeitos adversos e interações de cada substância. “Entre esses medicamentos temos os analgésicos comuns, os anti-inflamatórios não esteroides e os esteroides, opiáceos fracos e  fortes, além de outras classes de adjuvantes, como antidepressivos e ansiolíticos.”

Entre 40% e 50% dos pacientes com dor oncológica se queixam de dor moderada ou intensa, sendo necessários medicamentos opiáceos e adjuvantes associados em cada caso individual. Lisiana diz que de 70% a 90 % dos pacientes relatam bons resultados no controle da dor com o tratamento convencional. Ela ressalta que são fundamentais a individualização do tratamento,  acompanhamento de equipe multidisciplinar com experiência em oncologia e complementar apoio integrado de equipe de cuidados paliativos para suporte aos sintomas físicos, psíquicos e sociais.

Evidência científica

Na avaliação da especialista, a dor é uma experiência multidimensional com variáveis físicas, psíquicas, sociais, cognitivas, o que a torna um sintoma complexo e individual. A dor pode piorar com a ansiedade e depressão e gerar afastamento do trabalho e inatividade. “Exercícios, ioga, terapias físicas, mobilização passiva, terapias miofasciais, estimulação nervosa elétrica transcutânea, aplicações de calor ou frio, uso de órteses, apesar de haver poucos estudos clínicos sobre eles e modesta evidência científica, têm mostrado sucesso na prática clínica, melhorando o bem-estar, a funcionalidade e bom efeito analgésico principalmente quando há afetação musculoesquelética”, observa Lisiana , que é responsável pelo suporte clínico e cuidados paliativos no Grupo Oncologia D’Or.

Ela afirma que terapias integrativas como a tradicional medicina chinesa, medicina ayurvédica, homeopatia, meditação, hipnose, arteterapia, musicoterapia e outras têm evidências científicas de melhora e benefício em pacientes com câncer. “Todas essas terapias, de acordo com o National Compreensive Cancer Network (NCCN), são de nível de evidência categoria 2A (com
relativa evidência científica, mas úteis com o adequado seguimento clínico)”, ressalta Lisiana. Ela reforça que a indicação de cada terapia, associada a tratamento medicamentoso ou não, depende de avaliação individual e análise do cotidiano de cada paciente, conduzida por profissionais com experiência em oncologia em parceria com o oncologista responsável pelo tratamento do paciente.

Cuidado integrado

“A dor oncológica é tratável sob todos os seus aspectos, e o cuidado integrado é fundamental para o sucesso do tratamento oncológico e a  qualidade de vida dos pacientes e sobreviventes”, afirma Lisiana. O anestesiologista Zemilson Bastos Brandão Souza, especialista em medicina paliativa e terapia de dor, coordenador da Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) do Ministério da Saúde, acrescenta que o controle da dor oncológica é obtida em 75% a 85% dos pacientes com a utilização da escada analgésica da Organização
Mundial da Saúde (OMS). De 10% a 20% dos pacientes necessitarão de rotação de analgésicos  narcóticos e apenas 5% precisarão de métodos intervencionistas para o controle da dor, tais como bloqueio de nervos periféricos, procedimentos em radiologia intervencionista e administração de analgésicos no neuroeixo.

O universo da dor oncológica é amplo. Pode ser oriunda do comprometimento do sistema nervoso periférico e central, ocasionando dor de caráter neuropático, cujos sintomas possíveis são: formigamento, queimação, fisgada, pontada como choque elétrico e hipersensibilidade a determinado estímulo.

Cansaço

Outra característica da dor oncológica é a dor nociceptiva, que pode  ser de origem somática (devido ao comprometimento dos ossos e articulações, tecido conjuntivo e muscular) e visceral (atinge fígado, pâncreas, intestino e outros órgãos). Souza informa que 90% das pessoas com câncer relatam cansaço e debilidade física; 85%, anorexia; de 60% a 75%, náusea e constipação; e 60%, deficiência cognitiva. Não são raros quadros depressivos decorrentes do diagnóstico de câncer.

O especialista também ressalta a importância de a equipe médicaavaliar de forma adequada a dor relatada pelo doente e escolher a opção terapêutica mais apropriada. “Muitas vezes o paciente terá necessidade de tratamentos complementares para melhorar sua qualidade de vida, e é ele quem fará essas escolhas. A seleção da opção terapêutica pode incluir não só a medicina tradicional, mas também atividades como ioga, fisioterapia, shiatsu, musicoterapia, terapia ocupacional, acupuntura e outras”, afirma o médico, que também é responsável pela Clínica de Dor do Hospital Quinta D’Or e pela área de medicina paliativa do Hospital Caxias D’Or, ambos no Rio de Janeiro.

Avaliar benefícios

Após essas intervenções, ele diz que a equipe oncológica deve reavaliar a assistência oferecida, analisar eventuais benefícios e se há necessidade de outras terapias, medicamentosas ou não. Ele recomenda ainda que a pessoa em tratamento esclareça todas as suas dúvidas em relação ao planejamento terapêutico para garantir melhores resultados. Souza chama a atenção para a importância de identificar a situação cognitiva do paciente ou as habilidades do  familiar/cuidador para aumentar a eficácia da terapia.

De acordo com o especialista, a medicina integrativa ainda tem muito a caminhar no Brasil e recomenda-se que ela faça parte do escopo multidisciplinar da assistência oncológica. “Essa área precisa ser mais bem desenvolvida para que o paciente tenha à disposição todas as opções possíveis para o controle dos sintomas, não só físicos”, frisa.

Apesar da importância das terapias integrativas em benefício da qualidade de vida do doente, o anestesiologista lamenta que o assunto seja pouco discutido em centros oncológicos brasileiros. “Percebo que existem alguns projetos embriões em serviços especializados que notaram
a relevância da medicina integrativa para a qualidade de vida das pessoas com câncer.”

Informação

Henry Luiz Najman, coordenador da oncologia no Hospital Quinta D’Or, lembra a importância do acesso do paciente à informação sobre sua doença, ao tratamento e à conduta clínica para garantir ganho da qualidade de vida e benefícios à saúde.

Em relação à medicina integrativa, ele defende que ela não deve substituir o tratamento médico
tradicional. “Se o paciente oncológico é convencido de que a medicina alternativa substitui a assistência médica tradicional, o resultado é um desastre. Por isso, o termo adequado é medicina integrativa”, observa.

Na sua visão, ervas, vitaminas, cogumelo do sol, babosa e uma série de outros artifícios até podem ser benéficos, desde que utilizados em associação ao tratamento padrão, nunca substituindo o tradicional. Ele informa que muitos desses produtos têm evidências científicas preliminares e quase nunca foram testados em humanos.

Najman afirma que em muitos países do mundo, inclusive no Brasil, empregam-se acupuntura,
ioga, meditação, shiatsu, reflexologia, reiki e outras terapias em benefício do paciente  oncológico. Há estudos que atestam êxito do uso de Cannabis na redução de efeitos adversos do tratamento de câncer.

De acordo com Najman, a medicina integrativa no Brasil precisa ser incorporada à medicina tradicional. Ele ilustra o que diz com o fatídico caso do jornalista Marcelo Rezende (com diagnóstico de câncer avançado no pâncreas e metástase no fígado), que recorreu a tratamentos alternativos em vez do padrão e morreu em 16/09/2017.

 

Conheça os benefícios da medicina integrativa

A medicina integrativa pode ser indicada ao paciente oncológico em diferentes estágios da doença. Não há contraindicação, desde que ela seja conduzida por profissional especializado (em oncologia ou cuidados paliativos) em associação à medicina tradicional. Há fisioterapia aliada a técnicas de terapia manual e relaxamento, eletroterapia com eletroestimulação transcutânea (TENS), termoterapia, crioterapia, exercícios e acupuntura. A fisioterapia e essas terapias complementares têm evidências científicas comprovadas e melhoram a qualidade de vida dos pacientes.

A acupuntura, por exemplo, técnica da medicina chinesa, consiste na aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo para gerar estímulos ao sistema nervoso central e consequente liberação de substâncias endógenas, como serotonina e endorfina (hormônios do prazer). A fisioterapeuta Fabiana Lima Hottz, especializada em oncologia, diz que a acupuntura alivia a dor e controla ou previne efeitos colaterais do tratamento oncológico, como náusea, vômito, fadiga, insônia, fraqueza muscular, dor, diarreia e constipação, que podem ser causados por hormonioterapia, quimioterapia e radioterapia, mas não substitui os remédios.

Parceria

“Todas as técnicas devem ser aplicadas em conjunto com a assistência médica. Conforme diminui a dor do paciente, o oncologista ou o médico da clínica de dor reduz a dosagem dos
medicamentos”, esclarece Fabiana. Não é raro mulheres submetidas à cirurgia para câncer de
mama se queixarem de dor associada à limitação de movimento nos braços. A especialista diz que a terapia manual é uma boa indicação para a liberação tecidual e pode ser associada a exercícios com bastão, bolas e faixas elásticas, aliviando a dor e favorecendo a recuperação funcional.

Outra situação bastante comum é a neuropatia periférica, causada por alguns quimioterápicos. Trata-se de lesão dos nervos periféricos, que ocasiona dor e alteração da sensibilidade. “Quando o paciente relata problemas de sensibilidade nas mãos e nos pés, indicamos massageá-los com bolas/escovas de diferentes texturas associadas à acupuntura”, ressalta.

Existem outros recursos da acupuntura para quem não aceita aplicação de agulhas no corpo e quer os mesmos benefícios damedicina chinesa. As opções são o TENS (aplicação de eletrodos
na pele) ou as pastilhas de stiper (compostas de partículas de silício) inseridas nos pontos de acupuntura para estimulá-los. Há ainda a auriculoterapia, que coloca sementes da planta medicinal mostarda em pontos específicos da orelha.

Entrevistas

Fabiana, que é coordenadora da área de fisioterapia em oncologia do Grupo Oncologia D’Or, no Rio de Janeiro, conta que, antes de iniciar a assistência, a pessoa é entrevistada por um  fisioterapeuta, que analisa a causa da dor, se há ou não metástase, compressão tumoral e quais tratamentos oncológicos foram oferecidos. O profissional apresenta as ferramentas para  amenizar a dor e o paciente escolhe, conforme sua vontade.

Se o caso é somatização de dor no corpo e a pessoa quer relaxar os músculos, podem ser indicadas a termoterapia (aplicaçãode calor superficial) e a crioterapia (compressas geladas).
Ela informa que compressa com água quente no local da dor oferece efeito relaxante; já a bolsa de gelo é anti-inflamatória e analgésica.

Para dores intensas, sugerem-se sessões de fisioterapeuta, duas ou três vezes por semana, até que o paciente melhore. “O tratamento não tem duração determinada porque depende das queixas de cada paciente. Em geral, na primeira sessão os pacientes já relatam melhora. Eles retornam, solicitam mais sessões e gostam dessas ferramentas para amenizar a dor”, comenta.

Mais estudos

Fabiana observa que hoje em dia cada vez mais oncologistas e médicos assistentes encaminham doentes com câncer para as clínicas de fisioterapia do Grupo Oncologia D’Or. O assunto lhe desperta tanto interesse que ela pretende iniciar, ainda este ano, um projeto de estudo sobre os benefícios da acupuntura sem o uso de agulhas em pacientes com câncer de pulmão submetidos
à quimioterapia que relatam náuseas.

Texto originalmente publicado na Revista Onco&: :http://revistaonco.com.br/dor-alternativas-para-controle-da-dor-e-pacientes-oncologicos/